Ferrorressonância
Ferrorressonância: O Fenômeno Invisível que Ameaça Sistemas Elétricos
A ferrorressonância é um fenômeno de ressonância não linear que ocorre em circuitos de
corrente alternada (CA). Diferente da ressonância linear comum, ela envolve a interação
entre a capacitância do sistema e a indutância não linear de equipamentos com núcleo de
ferro, como transformadores.
O que causa a Ferrorressonância?
Para que o fenômeno ocorra, é necessária a combinação de três elementos principais:
1. Uma Indutncia No Linear Saturável: Geralmente o enrolamento de um
transformador de potência ou potencial (TP).
2. Uma Capacitncia Significativa: Cabos isolados longos, linhas de
transmissão ou bancos de capacitores.
3. Uma Fonte de Tensão com Baixo Amortecimento: Ocorre
frequentemente durante manobras de abertura ou fechamento de apenas
uma fase (monopolar).
Caractersticas do Fenômeno
Ao contrrio da ressonância convencional, a ferrorressonância não possui uma frequência
nica e crítica. Ela pode apresentar:
— Altas Sobretensões: Valores que podem chegar a 2 ou 3 vezes a tensão
nominal, danificando isolamentos.
— Sobrecorrentes: Causam aquecimento excessivo e colapso térmico.
— Níveis Elevados de Distorção Harmônica: O formato da onda de tensão
torna-se altamente irregular.
— Instabilidade: O sistema pode saltar entre diferentes estados de equilíbrio
de forma imprevisível.
Cenários Comuns de Ocorrência
Os engenheiros e técnicos devem estar atentos a situações de risco, tais como:
— Operações de Chaveamento Monopolar: Quando uma fase é conectada
enquanto as outras permanecem abertas.
— Rompimento de Condutores: Que gera um desequilíbrio capacitivo
severo.
— Sistemas com Neutro Isolado: Onde as capacitâncias para a terra são
mais influentes.
Como Prevenir e Mitigar
A proteção contra a ferrorressonância exige planejamento e dispositivos especficos:
1. Resistores de Amortecimento: Instalação de resistores no secundário de
transformadores de potencial (abertos em triângulo).
2. Manobras Tripolares: Evitar o uso de chaves fusíveis unipolares em
sistemas críticos, garantindo que as três fases operem simultaneamente.
3. Dimensionamento de Cabos: Avaliar a extensão dos cabos para evitar que
a capacitância entre em "sintonia" com a saturação do núcleo do
transformador.
Conclusão
A ferrorressonância é um desafio silencioso na engenharia elétrica. Sua natureza não linear a
torna difícil de prever sem simulações computacionais avançadas (como o software
ATP/EMTP), mas o conhecimento dos cenários de risco é o primeiro passo para garantir a
integridade dos ativos e a continuidade do fornecimento de energia.
Cargas Padronizadas e Impacto na Ferrorressonância
A carga conectada ao secundário de um transformador (especialmente TPs) desempenha um
papel fundamental no amortecimento do fenômeno. Uma carga muito baixa (transformador
operando em vazio ou levemente carregado) aumenta significativamente o risco de
ferrorressonância.
1. Classes de Exatidão e Cargas Trmicas (NBR 6855)
No Brasil, seguimos a norma NBR 6855, que define as cargas padronizadas para
Transformadores de Potencial. Essas cargas são identificadas por letras e representam a
potência aparente ($VA$) que o transformador suporta mantendo sua precisão.
2. A "Carga de Amortecimento"
Para evitar a ferrorressonância em sistemas onde o risco é alto (como em TPs conectados em
sistemas com neutro isolado), costuma-se utilizar uma carga mínima permanente.
Muitas vezes, a carga dos instrumentos de medição e proteção (retransmissores,
multímetros digitais) é extremamente baixa (da ordem de $1$ a $5 VA$), o que não
suficiente para dissipar a energia da oscilação ferrorressonante. Por isso, recomenda-se:
— O uso de um resistor de carga mínima no secundário.
— Garantir que o transformador opere com pelo menos 25% a 30% de sua
carga nominal de exatidão.
3. Transformadores de Distribuição
Para transformadores de força e distribuição, as cargas são dimensionadas conforme a
demanda da rede. No entanto, o fenômeno ocorre geralmente em vazio:
— Capacidade Padrão (kVA): 15, 30, 45, 75, 112.5, 150 kVA (comuns em
redes aéreas).
— Risco: Se um transformador de 75 kVA é energizado através de um cabo
longo e uma das fases da chave fusível falha, a capacitância do cabo
interage com a indutância de magnetização do transformador em vazio,
disparando a ferrorressonância.
Fontes e Referências Consultadas
— IEEE Standard C57.105: Guide for Application of Transformer Connections
in Three-Phase Distribution Systems.
— ABB Technical Guide: Ferroresonance — A potential threat to power quality
and equipment.
— Kindermann, G. Curto-Circuito. Edição do Autor. (Referncia clássica em
sistemas de potência no Brasil).
— CIGR Working Group: Reports on Non-linear Oscillations in Power
Systems.
— — ABNT NBR 6855: Transformadores de potencial - Especificação e
ensaios.
— — IEEE C57.13: Standard Requirements for Instrument Transformers.
— — Manual de Engenharia da CPFL/ENEL: Seções de dimensionamento de
subestações e proteção.